Estou emprestando a minha mãe!
Atenção: é só empréstimo por tempo limitado e não doação!
Precisamos nos afastar por uns dias porque quando eu digo que preciso de espaço ela me aparece com anúncio de um apartamento maior...
Não consegui dar aulas hoje. O corpo não respondia. Estou um caco podre! Me dá um baita desespero porque eu sei que as contas não vão parar de chegar porque eu estou cansada e deprimida.
Engraçado que me dá vontade de ficar na cama o dia inteiro, de não tirar a camisola, de não tomar banho, todos os sintomas típicos de depressão e logo em seguida eu penso que eu não posso fazer isso com meus filhos. Que se eu ficar na cama o gato e o cachorro vão acabar ficando sem comida e os filhos sem rumo. A mãe vai surtar ainda mais do que surta normalmente então...eu choro mais um pouquinho, solto um gemido mais doido e vou pra debaixo do chuveiro.
Se me dá tremedeira e falta o ar eu tenho que ir buscar força no fundo da alma porque cheguei a uma triste conclusão: não tenho o direito de ter piripaques! Depressão é coisa pra quem tem quem cuide. Ou pelo menos quem cuide da família, da casa, das contas, do gato, do cachorro, dos alunos, das plantas.
A vida é tão sacana que até depressão é pra quem pode. E eu não posso!
Juro que não foi por masoquismo, foi convocação mesmo, e lá fui eu com as classes de 3ª,4ª,5ª até 8ª à bienal do livro em São Paulo.
Foi algo assim...de livre e espancada vontade!
Senhor!
Éramos 7 professores mais a coordenadora pedagógica e uma das secretárias pra cuidar de 120... como direi? Capetas????
A mim, com a sorte que me é peculiar, coube cuidar de 10 amores da 5ª série. Os 3 alunos mais baderneiros e encrenqueiros caíram no meu grupo.
No ônibus eles foram logo sentando nas últimas fileiras e eu com eles... e durante os 90 minutos que durou o trajeto (sem transito graças a Deus) de São Roque até a Bienal eles gritaram, cantaram, rezaram (???? Não me perguntem porque não entendi), gritaram mais um pouco, mexeram com motoristas de caminhão.
Chegando lá tive a visão do Inferno de Dante – milhares de crianças e adolescentes agrupados na entrada.
Juro gente não é exagero, tinha umas 100 escolas com muitas classes inteiras. Parece que era o dia internacional de levar a criançada passear fora da escola.
Toneladas de crianças que nem aprenderam a ler ainda. Todas de mãozinhas dadas em fila e se você precisasse atravessar no meio delas azar o seu.
Os estandes eram uma balburdia só. Parecia loja do Baú da Felicidade com caras gritando promoções e oferecendo brindes.
De cara os 4 meninos me pediram pra poder andar sozinhos pela feira porque os programas das meninas era muito chato...mais do que depressa eu concordei afinal estavam todos com o número do meu celular (que se bobear eu vou ter que trocar), do celular da coordenadora e devidamente etiquetados com o nome e nome da escola.
De posse de 6 meninas lá fui eu pra um universo de Harry Potters; livros com uma linguagem especial pra idade e pro mundo delas; revistas Capricho e Atrevida e mangas.
Depois de duas horas rodando com as lindinhas eu perdi duas. Sobraram 4!
E eu não conseguia chegar nos estandes que me interessavam. Quando cheguei num elas pediram pra ir dar uma volta e me encontrar dali 15 minutos no café.
15 minutos com o “universo” ao meu alcance! 15 míseros minutos!
Na primeira parada achei livros didáticos que me interessavam muito mas todos sem preço e o “sistema” havia caído e os vendedores eram umas bestas que não sabiam dar informação alguma.
No segundo estande o preço do que eu queria era incompatível com o meu bolso.
Na livraria francesa comprei um dicionário pra um aluno que havia dito que se eu achasse podia comprar.
E meus 15 minutos de liberdade acabaram.
Encontrei as meninas, comemos algo caríssimo e fomos encontrar o restante da escola.
A desorganização pra pegar os ônibus de volta nos fez ficar 1 hora e meia num estacionamento coberto mas horrivelmente quente, sem água, sem banheiro, sem um banco.
Acabamos todos, professores e alunos sentados no chão sujo.
Pra pegar o ônibus tivemos que atravessar todo o caminho que havíamos feito até o estacionamento empurrando gente de outras escolas; cuidando de não perder nenhum aluno, nenhuma sacola e não ser roubados.
Na volta larguei os capetas lá atrás e sentei junto de um que não abre a boca!
Dizer que ninguém merece um dia desses é pouco! Devíamos obrigar os pais a irem junto nessas atividades tão...edificantes!
Ou então mudar o código penal e dar como pena a condenados por penas leves a obrigação de serem acompanhantes escolar.
mas hoje me bateu uma tristeza profunda. Daquelas que faz a gente achar que está tudo errado e que nada nesse mundo tem jeito.
Felizmente eu tenho contato com pessoas incríveis que me trazem a esperança de volta.
Um dos meus alunos de francês é um rapaz que trabalha numa fábrica, no setor de expedição. Ele estuda filosofia na USP a noite (detalhe, ele trabalha até as 17:30 na fábrica, depois pega a motinho dele e vai até SP, 100 km pra ir e outro tanto pra voltar) e tem aulas 4 vezes por semana. Na única noite livre dele durante a semana ele tem aula de frances e por dificuldades financeiras ele só tem uma hora de aula. Aos sábados ele estuda inglês e faz os trabalhos da faculdade além de namorar um pouco que ninguém é de ferro.
Ele quer estudar frances porque sonha fazer pós-graduação na França. Filosofia né? Já viu... E tb quer ser professor universitário.
É um cara que a vida inteira estudou em escola pública e que tá na cara nunca teve nada de mão beijada. Conversar com ele é uma delícia porque o cara é culto! Ele nunca saiu do estado de São Paulo e ainda assim conhece um monte de lugares por ter lido a respeito.
Hoje ele me falava que ele e a namorada não são de barzinhos e baladas mas que adoram comprar livros!!! Que eles trocam qualquer programa mais caro por um livro que queiram muito.
Gente, ele tem 24 anos!!!! Eu achei que esse tipo de gente fosse espécie em extinção!
Qualquer dia eu conto do garoto de 16 anos que faz aula de frances. O máximo!
Chegou assim de repente, um pouco antes da data, mas acho que esse tempo mais fresquinho nunca foi tão bem vindo. Infelizmente meu corpo reclamou da mudança súbita e peguei uma gripe daquelas.
Acordei hoje com o corpo moído, a cabeça latejando e ainda assim fui encarar a primeira aula as 7 e meia da manhã. Mas só deu pra dar essa porque logo depois começou uma dor de garganta horrível e febre.
Passei o dia a base de chá, Naldecon e cama! Acho que só assim pra evitar ficar ainda pior e ter que perder mais dias de trabalho. Tive que faltar na Skill e acho isso um saco porque desestrutura todo o andamento do programa, o que não acontece na escola regular porque se a gente perde uma aula é só correr um pouco mais lá na frente. Enfim...
Aproveitei que fiquei em casa e na cama mesmo preparei um monte de material extra.
Como eu disse num post abaixo, não sei se trabalhar vicia ou se vira mania mas eu adoraria ter a mania de passear, viajar, conhecer lugares e culturas diferentes.
Não sei que raios meus anjos andam fazendo que não me ajudam a ganhar na mega-sena!!!!
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